Nos
primeiros anos da Criação, uma gota d'água
celestial pediu e Deus consentiu: ela queria estar junto aos
homens. Estava determinada a auxiliar a humanidade em sua caminhada
evolutiva e, para tanto, desceria dos páramos siderais
e colocar-se-ia a serviço dos seres inteligentes da criação,
na Terra.
Assim,
ela partiu das mãos do Criador e se incorporou a uma
nuvem formada no Céu, que mais tarde se transformou em
abundante chuva que caiu sobre a Terra. O aguaceiro formado
iniciou sua caminhada, logo se transformando em enfurecida torrente,
que rompeu terreno hostil, provocando a abertura de sulcos que
mais tarde seriam rios.
Misturada
a milhões de gotas d'água terrenas, a missionária
foi impulsionada para diante, suportando diversos encontrões
em pedras, lajedos, fendas, troncos e raízes de árvores.
Sem domínio sobre si, experimentou, pela primeira vez,
a dor, o medo e a incerteza. Não imaginava aquela recepção
tão rude e desastrosa e, em alguns instantes, sentiu
arrependimento, desespero e tristeza.
Por
vários dias, a chuvarada caiu sobre a Terra e a gota
d'água celeste não teve trégua. Era lançada
para lá e para cá, numa convulsão que não
cessava. Ferida e cansada, experimentou o remorso, a culpa e
o abandono, sentindo-se desprotegida e esquecida. Acabou retida
em uma poça que se formou ao longo do caminho. Ali descansou
por alguns dias e, aliviada, recompôs-se intimamente.
Logo
após, foi ingerida por pequeno animal e, ao circular
por seu organismo, foi chamada a servir, misturando-se com substâncias
diversas, que nutriam o animal. Agiu com extremada dedicação,
renúncia e humildade. Adaptada àquela situação,
que para ela representava um longo período, sentiu-se
desprezada quando foi abruptamente lançada fora, ao final
do processo digestivo do animal.
Chegando
ao solo, foi absorvida pela raiz de uma árvore, servindo
como condutora da seiva que nutriu a planta. Ao cabo de bom
período, ressurgiu para o mundo exterior como produto
do orvalho que se depositou em bela flor. Inebriada pelo perfume,
experimentou sentimentos nobres como a esperança, a ternura,
o carinho e o amor. Reabsorvida pela planta, ingressou, mais
tarde, na composição de vigoroso fruto, sendo
posteriormente digerida por um ser humano.
Por
um período maior, conviveu no interior do organismo do
homem, indo se alojar, mais demoradamente, no coração.
Ali, partilhou de emoções diversas, que foram
de extremado ódio, inveja, maldade, traição,
calúnia e ofensa às manifestações
de alegria, prazer, felicidade, glória, conquista e realização.
Ao
cabo de algum tempo, foi chamada aos Céus. Retomou seu
lugar no Reino Celestial. Lá, manteve-se taciturna e
reflexiva. De tudo que viu, passou e fez, sentiu nascer dentro
de si um sentimento nobre chamado saudade. Já não
era a mesma gota d'água de antes. Estava contaminada
por sentimentos que são próprios dos homens, e
era junto a eles que gostaria de permanecer.
O
Criador, sentindo aquela mudança e num ato de amor e
reconhecimento, chamou-a e, abençoando-a, disse:
"-
Voltarás e ficarás para sempre junto aos homens.
Darás para sempre testemunho do que aprendeste. Serás
o anúncio da dor, do medo, da incerteza, do arrependimento,
do desespero, da tristeza, do remorso, da culpa, do abandono,
da dedicação, da renúncia e da humildade.
Serás
a prova da alegria vinda do coração; a companheira
dos desprotegidos, esquecidos e desprezados. Serás lenitivo,
até mesmo diante do ódio, da inveja, da maldade,
da traição, da calúnia e das ofensas.
Serás o grito dos que amam em silêncio; o alento
da saudade; o desabafo dos oprimidos; o eco dos perseguidos
e o clamor dos injustiçados.
Estarás presente até mesmo na alegria, no prazer,
na felicidade, na glória, na conquista e nas realizações
nobres alcançadas pelos homens! E, quando quiserem saber
quem és, nada dirás. Apenas brotarás dos
olhos dos que choram, sob a forma de lágrima".
Do
livro: "Histórias que ninguém contou, conselhos
que ninguém deu",
de Melcíades José de Brito. Editora DPL.

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CRÉDITOS
AUTORAIS
MIDI:
"Return"
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Autor desconhecido (Unknown Author)
IMAGEM:
By ©Robin Koni
TEXTO:
"A gota d'água celestial", de ©Melcíades
José de Brito
Conto extraído do livro:
"Histórias que ninguém contou, conselhos
que ninguém deu",
Editora DPL.
Todos os direitos reservados ao autor.
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